Oi, pessoal!
Aqui quem escreve é o Mario. Como estão?
Esse post é um “direito de resposta” a um comentário que recebemos na página 5, no dia de hoje, 18/12/2012. Achei por bem responder não no comentário, mas aqui, para quem sabe gerar uma conversa maior, e para que vocês possam acompanhar, já que a página 5 está lááá atrás (olha só, estamos na 70 e tantas… Que caminho!)
O comentário original está na página 5.
Caro(a) יהוה.
Primeiramente, não sei o seu nome de verdade, nem como pronunciar o nick usado, então copiei e colei aqui. Acho que seria muito legal se você comentasse usando seu nome, pra gente poder conversar direito. Comentários anônimos, ainda mais com críticas, são um pouco covardes.
Outra coisa que deve ser deixada clara: Você fala sobre o “meu” trabalho, como se só uma pessoa produzisse essa HQ. Qualquer pessoa com um mínimo de atenção lê o banner no topo do site e vê que TRÊS PESSOAS fazem essa HQ. Sempre me incomodo quando esquecem que eu não sou o único a fazer Terapia, seja o crédito bom ou ruim. Somos um equipe. Porém, agora sou só eu, Mario Cau, que respondo pra você.
Isso posto, vamos ao comentário do seu comentário (inception? eheh).
Sabe, logo que li seu comentário, fiquei incomodado. De verdade. Como um pai deve ficar quando alguém faz algo minimamente negativo pros seus filhos. Não, não tenho filhos, mas passei por coisas bem incômodas e sempre vi como meus pais ficavam angustiados com isso. E eu sinto a mesma coisa quando vejo críticas negativas sobre o meu trabalho. A vontade inicial é correr pro pc e responder, defender nosso trabalho.
Uma vez, num fórum sobre Hqs (Hqs de super-heróis e mainstream, na maioria), acabei achando uma resenha/crítica sobre a primeira edição de Pieces, minha série de HQ independente. O pessoal do fórum, em sua maioria, execrava a HQ por motivos muito peculiares. Motivos que eram justamente o motivo de eu fazer a HQ. “Não quero saber de ler HQ sobre cotidiano, eu já tenho minha vida pra isso”, e coisas do tipo. Até a capa criticaram (“cópia da capa do primeiro volume de ‘Local’”, que foi lançado mais de 1 ano depois da minha HQ). Mas depois de ficar irritado (“caramba, ninguém entendeu a proposta?”), pensei um pouco tentando buscar minhas falhas. Acabei percebendo que não valia a pena responder, por um motivo muito simples: minha HQ não foi feita para aquelas pessoas, que curtem super-heróis e coisas do tipo. Da mesma forma que eu não escreveria uma resenha crítica de um disco de pagode para que fãs de rock lessem, porque simplesmente, aquele disco não foi feito pra mim, e sim pra fãs de pagode. Pode ser um puta disco, mas eu não tenho critério nem bagagem pra opinar.
Talvez você ache o personagem desinteressante (e com isso, a HQ inteira, já que ela é basicamente SOBRE esse rapaz) porque ele simplesmente não “fala” com você. Não sei que tipo de quadrinho você costuma ler, mas acontece muito de pessoas que não curtem esse tipo de história não gostarem de Terapia também, e isso é muito normal. Sério. Já ouvi de amigos, amigos do peito mesmo, que não curtem Terapia por causa da temática, que não tem muito a ver com eles, e isso é muito normal, porque eu também não gosto de certas coisas por não terem a ver comigo. Só acho que se você não gostou de Terapia, pelo menos pense se Terapia é pra você. Se não, então nem perca tempo comentando, pois você não vai acrescentar muito. Falar “mal” (olha as aspas) sem acrescentar nada, pra mim, não vale.
O que me leva ao próximo parágrafo, a coisa mais peculiar do seu comentário.
Como você mesmo disse, leu só 4 páginas e já sabe o que tem de errado com o personagem. Sério??? 4 páginas? Você vê só 4 minutos de um filme e já julga o personagem, o diretor, o roteiro? Não sei se leu todo o resto da HQ (temos mais de 70 páginas, não é por falta de material), mas vir aqui e dizer que nosso personagem é desinteressante tendo lido meia dúzia de páginas do primeiro capítulo é se precipitar DEMAIS.
Vou te dar um exemplo. Eu tentei ler o “Apanhador no campo de centeio”. Sempre ouvi falar muito bem desse livro, ovacionado por meio mundo como genial e etc. Ler foi um exercício interessante. Lá pelo meio do livro, eu já não suportava o Holden, personagem principal e narrador do livro. Que moleque chato! E me senti mal por não ter gostado. Será que eu não estou sabendo ver a verdadeira valia dele? Parei o livro faltando alguns capítulos pro final, pois ele estava me exaurindo psicologicamente. Simplesmente o “jeito de ser” dele não conecta em nada comigo. No final pensei que eu não dei a chance pro Holden me convencer do contrário, por não ter terminado o livro. Por outro lado, estava claro que a mensagem que ele queria passar não conectava comigo. Paciência.
O que eu não farei é entrar em debates sobre o livro falando mal dele sem conhecê-lo por inteiro. Minha opinião sempre vai terminar com “mas eu não terminei o livro, então posso estar equivocado”.
Eu achei sua mensagem super edificante. Saia, viva, ame, chafurde na merda e etc. É o que eu costumo achar. As pessoas não costumam VIVER muito, e tem muita poesia na vida, é uma questão de ponto de vista. Pelos conselhos que você dá no comentário, fico com a sensação de que você parece ser o tipo de pessoa que iria gostar de Terapia. Mas vai saber. Voltando aos seus conselhos: Não que seja fácil, claro que não é. Mas é possível. Achei bonito. Mas totalmente desnecessário. Sabe por quê?
Você não leu a HQ inteira, até onde eu saiba, então não sabe como nós três trabalhamos os personagens e suas histórias. Terapia é mais do que uma “HQzinha sobre um moleque chato”. Um mínimo de pesquisa (nem é preciso ir longe!) te levaria a nossas biografias. Te levaria, por exemplo, aos blogs do Rob, onde ele escreve com sucesso sobre a VIDA, como poucos. Com uma sinceridade, um bom humor, críticas inteligentes e um amor pela vida permeando tudo, que muita gente não consegue nem chegar perto. Só se escreve bem sobre a vida se você souber viver bem a vida. Todo o sucesso dele com os leitores e crítica, nesses 5 ou mais anos de blog e livros, não pode estar errado. E você chegaria à Marina, que escreve Terapia com o Rob, e que além de também ter toda uma bagagem de vida, que alimenta o próprio trabalho dela, está se formando em Psicologia e dá a maior credibilidade ao que fazemos: os dramas humanos são o campo de trabalho dela. Ela sabe muito bem do que fala.
Você chegaria também, por exemplo, ao MEU trabalho. Não fiz ou faço somente Terapia (apesar de considerar que é meu melhor trabalho). Tenho uma série de HQ independente chamada Pieces, cuja premissa é mostrar pedaços de vida, homenagens a momentos poéticos e o poder das sutilezas. Eu só criei essas HQs por ter vivido várias coisas. Elas são uma homenagem a essas coisas, experiências de todos os sabores e pesos que encontrei por aí, vivendo. Meu maior objetivo como artista é conseguir trazer para as páginas de HQ u ilustrações, todo o poder dos sentimentos e sutilezas dos mesmos, para que meus leitores possam vivenciar exatamente aquilo que eu quero passar. Acredite, não sei se você desenha, mas isso não é nem um pouco fácil. Bom, geralmente sou muito mais modesto do que precisava, mas vou deixar um pouco de lado por enquanto, para dizer que indicações a troféus como o HQMIX significam alguma coisa. Críticas positivas de pessoas relevantes dos quadrinhos – jornalistas, escritores, pesquisadores, artistas e mais importante, leitores – também significam alguma coisa. E eu venho (graças ao meu trabalho, esforço e mais importante, paixão total ao que faço) colecionando indicações, críticas positivas, e todas essas coisas bacanas.
E no meio de tudo isso, temos o fato de que Terapia ganhou o HQMIX de melhor webcomic de 2011, o que com certeza não é pouca coisa…
Ainda se eu fosse um artista ruim, um escritor medíocre, ou uma pessoa babaca e sem conteúdo algum… Escrevendo e desenhando sobre as coisas que eu nunca vivi… Aí você poderia falar tudo isso. Mas não. Terapia é um trabalho feito com paixão, por três pessoas que viveram e vivem intensamente e têm uma carga de bagagem, de experiências e de técnica que torna nosso trabalho digno de credibilidade. E fazemos justiça a isso indo cada vez mais longe, desbravando cada vez mais o psicológico de nosso personagem, e criando páginas com experimentações narrativas que potencializem o que ele sente, mas isso só se vê lendo a HQ inteira. Você leu só 4 páginas mesmo?
Bom, sinto por ter me estendido demais, mas precisava mesmo te responder. Acho bacana, esse foi talvez o primeiro comentário negativo que recebemos em mais de um ano e meio de HQ. É interessante saber POR QUE as pessoas que não gostam de Terapia têm essa opinião, mas volto lá em cima pra repetir: antes de tudo, leia a HQ inteira, nos conheça minimamente, entenda nossa proposta, e mais importante, veja se essa HQ é pra você mesmo. Se for, bem-vindo, espero que possamos mudar sua opinião (caramba, só 4 páginas? Ainda não acredito nisso, mas tudo bem…).
E se não, se vir pela experiência toda que Terapia não te agrada em nada, então melhor não ficar criticando à toa… Temos leitores que gostam, e sempre existirão OUTRAS Hqs por aí que vão te interessar mais. O Petisco mesmo tem por enquanto 7 séries. É só pesquisar, você com certeza sabe disso.
Sem mais, um abraço e boa leitura.
Mario Cau
Ilustrador e co-roteirista de Terapia
PS: 4 páginas!!!

















