Em 1989 eu começava a trabalhar profissionalmente como ilustrador, numa pequena editora no centro de São Paulo. Sempre fui um leitor de quadrinhos, desde que me entendo por gente, como se costuma dizer. Minha mãe lia para mim antes de eu aprender sozinho. Estando no centro da cidade ficou mais fácil de frequentar uma livraria chamada Muito Prazer, que ficava ali na Avenida São João no número 735. Para quem é desta época ou conheceu o lugar, sabe que lá era o point para encontrar os mais variados quadrinhos, era um santuário para Nona Arte e os aficcionados por ela. Pois foi ali, neste ano de 1989, que eu “descobri” a Garagem Hermética e o seu genial criador, MOEBIUS!

De verdade mesmo o que eu comprei foi o Major Fatal, uma edição da L&PM, em preto e branco, só depois é que fui saber o que era a tal “garagem”. Não sei se esta HQ já havia se tornado uma referência, naquele momento eu só sabia que havia encontrado um estilo de desenho fascinante. Fiquei encantado com aquele traço, ora realista ora caricato, as hachuras, o enquadramento, páginas as vezes com dois quadros apenas e outras com 18 quadrinhos, eram de encher os olhos, a mente e o coração com aquelas viagens.

A introdução, assinada pelo próprio, explicava o processo de feitura daquela história, daí entendemos as diferenças estéticas e as vezes a quebra no rítmo narrativo mas não importava, estava ali um desenhista para ser apreciado, estudado e colecionado. No ano seguinte eu tive contato com a outra faceta da arte de monsieur Jean Giraud, agora assinando como GIR, o Tenente Blueberry, em uma publicação da Editora Abril, a hoje clássica série Graphic Novel nº 21. Confesso que com o passar do tempo acabei sendo mais fã de Moebius do que de Gir.

A vida foi correndo e eu pude conhecer e adquirir outros tantos trabalhos do mestre francês, não tenho todos os que eu gostaria de possuir mas os que tenho me fizeram feliz. Fui sabendo, aqui e ali, das grandes realizações de Moebius tanto nos quadrinhos como no cinema. No entanto a vida continuou sua corrida, pela grandeza da sua obra infelizmente pouca coisa foi publicada no Brasil, mas Moebius é um ícone, não há como esquecê-lo mesmo não tendo quadrinhos novos para ler. Nas reviravoltas desta mesma vida, depois de décadas, a Devir finalmente publicou o Incal e no ano passado a Editora Nemo entrou com força e iniciou uma coleção para as principais obras do quadrinista.

Porém, de novo, a vida corre e agora ele se foi, cada um professa sua crença e pode imaginar o que quiser como destino para este ser humano extraordinário. Foi, nada mais de desenhos novos, nada mais de Arzach e de tantos outros universos inexplorados e complexos. Nada mais de Major Fatal, Jerry Cornelius, Lady Malvina, Jonh Difool e de Meta-Barão. Acreditemos no que quisermos, foi para onde tinha que ir, espiríto iluminado que nos proporcionou momentos de encantamento, diversão e sonhos.

Eu prefiro acreditar que ele está bem tranquilo e feliz à bordo do Ciguri.
Boa viagem Major Moebius!