O texto a seguir é de autoria do Rob, extraído com permissão do próprio do Chmap Vynil. Para ler o original e comentar, acesse esse link!

 

Ao sair do estádio do Morumbi, não pude deixar de perceber a decepção no rosto de muitas pessoas na plateia.

Antes de continuarmos vale dizer que se existiu um problema no show de Eric Clapton em São Paulo foi a escolha do local. O espetáculo é intimista demais para o Morumbi. Os problemas no som eram horríveis nas duas primeiras músicas, ao menos para quem estava nos anéis superiores. Além disso, a música de Clapton, num local monstruoso como este, perde parte da personalidade em alguns momentos. Update: a Marina, minha companheira no roteiro de TerapiaHQ, criticou bastante q qualidade do som, e eu dou total razão a ela a respeito disso.

Mas a visível decepção de boa parte das pessoas não se devia ao Morumbi. Afinal, mesmo com duas horas de show, Eric Clapton abriu mão de grandes clássicos, como Bell Bottom Blues e Sunshine of Your Love, investindo em músicas mais pessoais e até mesmo arriscando um arranjo totalmente novo para sua música-assinatura, Layla.

The gypsy woman told my mother
Before I was born
I got a boy child’s comin’
He’s gonna be a son of a gun

Antes de falar do show, é preciso discorrer um pouco sobre estas pessoas. Atualmente, qualquer espetáculo de um “astro do rock”, especialmente no Morumbi, torna-se mais um show. É um evento social, que atrai toneladas e mais toneladas de roqueirinhos e roqueirinhas de shopping center. Deixou de ser música para se tornar um flash mob. As pessoas vão apenas para falar que foram.

Você conhece o tipo: veneram publicamente um artista consagrado sem sequer conhecer sua obra, somente porque ele é considerado importante. Falar bem dele traz pedigree à sua imagem de “roqueiro”. E, na semana do show, se tornam os maiores “fãs” do sujeito, escolhendo a dedo dois ou três grandes sucessos e decorando cada verso e acorde. Afinal, é preciso saber cantar ao menos as principais músicas para mostrar a todos ao seu redor o quanto você “sempre” foi “fã”.

Assim, passa dois ou três dias falando somente no artista, aos amigos e na internet, para deixar claro a todos que irá ao show porque é roqueiro; e os dois ou três dias seguintes ao show falando o quanto o espetáculo foi maravilhoso, para deixar claro que foi ao show porque é roqueiro.

He gonna make pretty women’s
Jump and shout
Then the world wanna know
What this all about

Já nos shows, o figurino é sempre o mesmo. Montado em lojas de departamento ou de grife, normalmente com blusinhas estampadas com caveiras cercadas de brilhantes, que descobriu em blogs de moda. Isso, claro, para as meninas; os garotos estão sempre com jaquetas rasgadas e camisetas do último show que foram – é a forma de mostrar que aquele não é o primeiro show de sua vida.

Se você conhece alguma pessoa assim, preste atenção nos comentários destas pessoas e você verá que ela usa sempre os mesmos adjetivos e elogios (normalmente vazios) em conversas e nas redes sociais para descrever como os shows nos quais ela foi foram ma-ra-vi-lho-sos. Muitas vezes não é falta de vocabulário, é piloto automático mesmo. Afinal, é preciso mostrar o quanto curtiu o show, pois precisa zelar pela sua imagem de roqueiro.

Já Eric Clapton não tem imagem nenhuma a zelar – e é isso que deve ter decepcionado imediatamente todas estas pessoas que estavam no Morumbi com suas roupinhas de roqueiro de butique e o refrão de Layla cuidadosamente decorado.

But you know I’m him
Everybody knows I’m him
Well you know I’m the hoochie coochie man
Everybody knows I’m him

Porque Eric Clapton não é – ou, melhor dizendo, nunca foi – um astro do rock. Claro, sua importância dentro da história do rock é inegável e isso pode passar uma imagem errada de sua persona. Mas Clapton é, antes de tudo, um músico, e não um astro. Em seus shows, concentra-se totalmente em sua guitarra, em sua banda e em sua música. E só.

Vítima de uma timidez lendária no mundo da música, grita um “thank you” ao final de algumas músicas – e esta é sua única interação com a plateia. Seu show não tem a pirotecnia de outros espetáculos vistos recentemente no Morumbi, baseando-se somente em sua música – o maior exemplo é sua entrada no palco: caminha lentamente, com uma roupa que ele provavelmente usa dentro de casa (calça, camisa e sapatos) acena para a plateia, pega a guitarra e começa a tocar. Pois ele está lá para isso.

Para os roqueirinhos e roqueirinhas que queriam mais um “grande show em seu currículo” para matar os amigos de inveja e parecer cool, isso já tornaria o espetáculo do inglês numa experiência difícil. Mas, para elas, este é apenas o primeiro grande “problema” de Eric Clapton.

I got a black cat bone
I got a mojo too
I got the Johnny Concheroo
I’m gonna mess with you

O segundo – e muito maior – é que, cerca de quinze anos para cá, o guitarrista abandonou totalmente sua carreira de roqueiro e concretizou seu grande sonho, tornando-se aberta e declaradamente um músico de blues.

Em sua biografia, Clapton deixa claro que tocava rock (mesmo com arranjos de blues) porque era o que se tocava à época em Londres, mas seu sonho sempre foi tocar blues “de raiz”. No livro, ele reverencia o tempo todos os grandes nomes do gênero (Muddy Waters, Robert Johnson), praticamente pedindo desculpas por ter mais reconhecimento público que seus ídolos.

E, de dez ou quinze anos para cá, ele assumiu totalmente seu lado blueseiro: gravou um CD com BB King, outro somente com covers de Robert Johnson e investe cada vez mais no seu festival Crossroads.

E este é o Eric Clapton que se apresentou em São Paulo, causando um enorme ponto de interrogação em muitas pessoas da plateia que conhecem a carreira do músico somente superficialmente, muito mais pela mídia do que pelos discos em si.

I’m gonna make you girls
Lead me by my hand
Then the world will know
The hoochie coochie man

Mas não foi por falta de aviso. Já na terceira canção, Hoochie Coochie Man, música de Willie Dixon que se tornou um dos maiores hinos do blues de todos os tempos na voz de Muddy Waters, ficava claro que a noite seria diferente do que estas pessoas esperavam. Para o desânimo das pessoas com camisetas de caveirinhas fofas e botinhas de marca, começou a se desenhar que o Morumbi serviria de palco para um show de blues, e não de rock.

Momentos depois, uma pausa no show que confirma toda a áurea blueseira do espetáculo. Clapton senta-se em um banquinho e começa toda uma parte acústica, abrindo com Driftin’ Blues (composta por uma big band dos anos 40) e a maravilhosa Nobody Knows You When You’re Down And Out (que, apesar de estar no disco Layla and Other Assorted Love Songs, é um cover – foi composta na década de 20).

A noite fria definitivamente não é de rock, é de blues. E o frio em São Paulo contagia boa parte da plateia, que apenas assiste ao show, esperando pelo Clapton “herói do rock” construído pela mídia, que parece não ter entrado no palco.

But you know I’m him
Everybody knows I’m him
Oh you know I’m the hoochie coochie man
Everybody knows I’m him

E ao final deste set acústico ocorre o momento crucial do show. Ainda sentado, mas já com sua Fender de volta aos braços, Clapton inicia Layla. Era a música que faria o estádio vir abaixo. Contudo, o que se viu foi certo receio das pessoas em aplaudir, talvez por não reconhecerem o que estavam ouvindo.

Com um arranjo totalmente novo – que fica entre a versão acústica do Unplugged de 1992 e a original, Clapton transformou seu hit num blues amargurado e dolorido, que teria palco mais adequado numa espelunca à beira de estrada no Mississipi do que no palco do Morumbi. Pessoalmente, achei a versão tão boa quanto a original – e só não me arrisco a dizer que ela é melhor em alguns momentos já que a original tem seu status de clássico esculpido em pedra.

Mas foi o momento-chave do show e que talvez simbolize toda a carreira atual do músico. Ali, Clapton abandona definitivamente sua carreira no rock, “sacrificando” até mesmo seu maior sucesso em nome de paixão de sua vida: o blues. O rock ainda existe em seus shows, mas sua alma é definitivamente negra e nascida no sul dos Estados Unidos.

Mesmo sabendo a letra de cor e salteado, não consegui cantar junto. E não por não estar acostumado ao ritmo novo, mas sim por me emocionar demais com a voz gritada do músico implorando “please don’t say we’ll never find a way” para um Morumbi lotado, a ponto de eu quase engasgar em alguns momentos. Eu já havia quase chorado durante o solo de Old Love, somente pelos acordes em si, pois a música não é especial para mim. Coisa de momento.

Coisa de blues.

On the seventh hours
On the seventh day
On the seventh month
The seven doctors say

Aí, sim, temos alguns momentos de rock para que as pessoas de blusinhas fofas e maquiagem no rosto possam contar para os amigos. Quer dizer, rock? Talvez não. A sequência vem com Badge, composta pelo supergrupo Cream, cuja carreira era totalmente baseada no blues americano da primeira metade do século 20; Before You Accuse Me, cover de Bo Diddley, que sempre teve o pé fincado no blues; e a magistral Little Queen of Spades, cover de ninguém menos que Robert Johnson, o mais lendário nome da história do blues e um dos maiores ídolos de Clapton – e de basicamente todos os guitarristas ingleses dos anos 60.

Em meio a tudo isso, Wonderful Tonight, uma das baladas mais belas do guitarrista; e, fechando a primeira parte do show, mais um pouco de “rock”: Cocaine, um dos maiores sucessos da carreira de Clapton – na verdade foi composta pelo seu parceiro J. J. Cale – que ganhou uma versão monstruosa e magistral de oito minutos e encerrou o show como a única música cujo refrão (fácil e curto) foi cantado junto pela plateia.

Após poucos minutos de intervalo, Clapton e a banda voltam ao palco ao lado de Gary Clark Jr, guitarrista texano responsável pelo show de abertura. Considerado o grande nome atual do blues texano, o guitarrista foi apadrinhado por Clapton e chegou a participar do grande festival Crossroads, organizado, pelo inglês, na edição de 2010.

Com todos os músicos no palco, o encerramento definitivo. A versão do Cream para Crossroads, um dos maiores sucessos de Robert Johnson. Agressiva, roqueira, pesada… Mas mesmo assim, um blues em sua essência, e ideal para fechar a noite. Clapton se despede do palco de forma humilde.

Fim.

He was born for good luck
And that you’ll see
I got seven hundred dollars
Don’t you mess with me

E, ao ver aquela pequena figura vestindo azul caminhando de costas para fora do palco – de onde estava, acompanhei todo seu percurso até ele desaparecer de vista – eu percebi que estava sem palavras. Sem palavras e um tanto quanto emocionado.

Porque nesta noite eu aprendi muito com o blues, vendo algumas de minhas músicas preferidas ao vivo pela primeira vez. O blues é safado em Hoochie Coochie Man, mas dói em Layla; o blues é solitário em Nobody Knows You When You’re Down and Out e briguento em Before You Accuse Me. O blues se apaixona em Little Queen of Spades, mas escolhe culpados por ter perdido o amor em Tearing us Apart.

Mas, ao final, o blues admite que não existe resposta para tudo, como Clapton deixou claro ao encerrar seu “discurso” de duas horas com a enigmática e quase hipnotizante Crossroads.

Neste 12 de outubro, eu não tive uma aula de blues. Eu tive uma aula de vida.

Aliás, me arrisco a dizer que a apresentação de algumas horas atrás não foi um dos maiores shows de blues que certamente terei em minha vida, mas um dos maiores que já aconteceram na cidade de São Paulo.

Pena que nem todos entenderam isso. O espetáculo foi difícil e intrincado, intimista e pessoal demais. Mas esteve longe de ser decepcionante. Na verdade, é o contrário. Foi mágico. Pois se tratava de Eric Clapton tocando para Eric Clapton, do jeito que ele sempre quis. E isso é algo que não tem preço, tanto para ele como para a plateia.

A apresentação de horas atrás foi feita para se sentir, digerir lentamente e guardar com você, do seu jeito. E mais nada. Porque foi, antes de tudo, um show de blues.

But you know I’m him
Everybody knows I’m him
Well you know I’m the hoochie coochie man
Everybody knows I’m him

Ontem, Deus esteve entre nós.

Bem aventurados aqueles que entenderam as palavras do Senhor.

Pois é graças a ele (e à sua alma negra) que “I feel wonderful today”.

O universo musical de Eric Clapton (a imagem original está aqui).